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domingo, 11 de novembro de 2012

NA VOZ DO VENTO.


DEUS NÃO ESCOLHE LUGAR PRA FALAR.

NO FINADOS DE 2012 – POR MARKUS LIBRA

         1985, ao som do clarim, o toque de silêncio rompeu o fio que separa da vida a morte, ou talvez fosse, minha alma juvenil que, quem sabe entendesse o vento dizendo adeus.  
     E as palavras poética do meu primo em homenagem ao nosso mestre Leal, nosso avó Leal.  
     Mestres, sábios, surgem em nossos caminhos e não atentamos em nossa medíocre  inteligência.     
     E quantos mestres perdemos, sem ao menos dizer obrigado pelas bênçãos de conselhos tantos.

     E o espírito do meu avô Leal soprando no meu ouvido:
     - Não chore mais, que o vento esta me chamando.  E o clarim silenciou e, o poeta calou-se.
     
     Quando era criança, cria que Deus falava na voz do vento.   E num repente, viajei e encontrei meu avô, meu sábio mestre, sentado na cadeira de varanda, com seu terno cinza claro, uma história e teu sorriso genial.     Quando não, uma palavra tirada da experiência dos anos, e um cruzeiro pra levar pra escola.  
     
     E a urna com seu corpo ficou no campo santo.  E eu disse a mim, que não pisaria mais o solo onde encontra os restos mortais de nossos entes. Acho que foi  porque eu não soube o que fazer, com a dor do meu peito.  
     Passou, e  um dia eu voltei ali, muito rapidamente, não que os anos fossem instantâneo, acho que a gente não nota o passar dos anos.   

      E alguns anos depois, fugi do velório do meu velho Pedro, e corri pra o lugar mais alto de Pirajuí, onde numa vastidão verde descampado eu pudesse ouvir o vento, e pensar que nele, no vento, meu pai estaria galopando um baio espiritual.   E sentei no gramado intenso, e o vi galopando um baio, a camisa azul aberta no peito, uma mão na rédea e outra agitando o chapéu, e ele passou veloz e o sorriso estampado no rosto e,  eu sorri entre lágrimas tantas.    Mas ainda assim fui ver a cova aberta, e fiquei meio que de longe, e vi descer a urna e, minha mente esperando o vento que passou no dia que ouvi meu avô soprando no meu ouvido:
      - Não chore mais que o vento esta me chamando.   Mas agora não havia mais o toque de clarim, e o único poeta ali, era eu calado, sem fazer homenagem ao herói.   Mas emprestei o toque de clarim do outro tempo e daí, ouvi na voz do vento:
      - Não chores mais, que o vento esta me chamando, estou indo selar meu baio.      Foram-se acho que dezoito anos e, nunca mais havia entrado no campo santo, nem ido a velórios, salvo uma vez na despedida da minha Bisa, mas eu mesmo nem iria, foi só pra evitar falação.   Preferi voltar pra o meu quarto e sentir no vento que entrava pela janela, e trazia o aroma bom dos bolinhos de chuva, aqueles que minha Bisa preparava no café da tarde.   
      Mas nesse dia de finados, do nada, estava eu la, perdido no cemitério da cidade, e filmes passando na minha cabeça, e nem o tumulo do meu velho eu achei.    Mas sentei perto de onde eu achava que era, e o mormaço queimando meu rosto, e eu olhando pra dentro de mim, vendo o baio galopando e ouvindo a voz no vento.   Ali estive por mais de hora, tentando imaginar o roteiro que foi a vida do meu velho, nunca entendi muito porque nos prendemos aos mortos.   Talvez por não tiver valorizado em vida a vida, mas sai e fui andando, vendo as pessoas. E nas pessoas, as saudades, as lembranças, pessoas de olhos molhados, talvez aguardando a voz no vento pronunciar algo, como:
-  Não chores mamãe, o vento esta me chamando, que Cristo chamando pra cirandar. Ou ainda quem sabe:
 - Filho meu, estou daqui cuidando de você ai. 

   Não andei rápido, como ando normalmente, nem tive pressa de sair dali e, quando notei uma mulher me chamando, era a mãe do meu sobrinho do qual ao velório eu não havia estado, tamanha era a dor.     Não a dor da morte, mas a dor de não estar presente em vida.   A gente se ausenta, ausência dói depois, quando nós mesmos não temos a presença.    E ela pendurou-se no meu pescoço, colocou o rosto pequeno no meu peito, e disse:
 - Quer ver onde esta o meu menino?   E eu quis ouvir a voz que vem no vento, dizer:
 - Não chores o vento esta me chamando.   Quis que ela ouvisse também, mas a voz de Deus não entra onde há ódio e magoas e desejos de vingança, eu acho.  Mas confesso, eu chorei vendo aquela mulher chorar, diante de um tumulo de piso ou azulejos, sei lá, de cor escura.   Infinitas flores multicores, e vasinhos coloridos de tons Pink, lilás e outros sutis.  E ela disse justo pra mim:
   - Olha Marquinho, aqui neste relevo, quero que você faça uma mensagem, escreve do teu jeito, uma homenagem.   Pra que escrever pra os mortos? Pra ela importa,  é o filho dela, o fruto dela, foi nascido dela.   
        Eu que sempre achei estranho homenagear mortos.  Mas é importante pra ela.   Mas eu não sei escrever, mas pensei rapidamente num salmo, ou sei lá.   Não sei escrever coisas assim.   Nem mesmo sei se sei existir, tantas são as dores que também causamos no caminho.    Ela molhou meu ombro, e falava do assassino do filho, se perguntava, onde estava o algoz, e eu me perguntava:   Onde nós estávamos? Sou o tio que podia aconselhar, ela a mãe, e o pai dele onde estava?      E os avós, onde estavam?  De repente o algoz é mesmo o culpado, e nós somos o que?     Hoje achamos tudo normal, e porque não é mais normal levar os filhos pequenos na igreja?   Ensinar a ler a bíblia, brincar de carrinho no quintal de terra, porque não é normal?   E a merda do conselho bom, que a gente sopra nos ouvidos dos filhinhos desde o embalar no colo, onde estava?       Que merda é essa?    Você entende o que?       Que entendo eu?       E a gente chora por filhos, e um dia na igreja imaginei, que Deus deve de ser triste por demais, tantos filhos morrendo, matando, fazendo guerra.  Que droga!  Meu Deus é tão triste.     Não sou exemplo, nunca fui, nem sei se quero ser.    Gostaria sim, mas não sei.  Mas sei que é mais difícil morrer matado onde Deus habita, ou dentro da igreja, ou no curso bíblico, ao redor da mesa reunido com a família onde a embriagues são de bênçãos do Senhor meu Deus.   O mal é sutil, vem pra matar, roubar e destruir.   A gente não nota, quando o mal entra na tua casa e você acha bonitinho teu filhinho ou filhinha dançando funk, ou quando permite crianças vendo as bestialidades dos BBBs da vida, ou novelas.    Deixa isso, não sou pastou ou padre.

      Logo sei lá do nada, estava sentado no banquinho de mármore que meu primo mandou colocar junto ao tumulo do meu avô Leal, e fiquei ali, mais que horas, vendo as pessoas, vendo a saudade, às vezes vinham lembranças que me faziam sorrir e as lágrimas molhavam meu rosto.  Ouvi o clarim de 1985, meu primo declarando poesia no dia do enterro do meu avô Leal.    Vi meu avô sorrindo e compreendi a voz do vento dizendo:
- Não chores, que o vento esta me chamando.  Desta feita, a voz do vento continuou:
- Há uma luz bonita, o vento suave que diz vem, é Cristo.    Atentando aos homens de boas obras.   Daí percebi mesmo, que o banco de mármore junto ao tumulo é pra refletir, sobre você e os homens, sobre Deus e os homens, sobre você e Deus, nesta passagem tão rápida, chamada “vida!”.   É que não se pode perder a percepção de Deus, o elo.     É que se você tiver um elo que te prenda a Deus e a vida, você será daí, livre no próprio Deus que se prendeu e, será vida na morte.   Então tem ali aquele pequeno banco de mármore.        E minhas costas queimaram na meditação do meu eu. 
     No dia de finados, o primeiro tumulo que visitei foi da minha tia Elisa, meu pai a chamava carinhosamente de Fia, era como santa em vida, linda por de mais da conta na sua inocência, já de alma impar.   Ela tinha, me recordo deficiência, parece que caiu e bateu a cabeça quando criança ficou sequela.    Quando eu era bem pequenino a via andando pelo quintal da casa da avó Césa, sorrindo e às vezes, batia palmas, às vezes a via estendendo a mão pra uma laranja ou se encantando com passarinhos.    Vi algumas vezes meu pai chorando com ela recostada teu peito, com ela abraçada, o rosto pequeno dela no ombro largo dele.  Mas tem a foto dela La, no mesmo tumulo também a foto do meu avô João e os dois foram colocados sob a sombra daquela árvore grande perto do muro do campo santo.   Fiquei ali, ali não tem banco de mármore pra sentar e meditar, mas tem a sombra fresca da arvore.                
        Meu pai chamava meu avô carinhosamente de: “PAI”, mas era um chamar diferente, saia da fala como olhar molhado, meu avô era da roça, no tempo que roça fazia dos homens escravos.    E meu pai, era sonhador e tinhas os pais bem pobres e tua família também.  E cuidava de todos.   E se não podia oferecer uma vida calma na sombra boa, então descansou seus entes na sombra linda da árvore linda do campo santo.     E eu nem tinha mais a feição de vovô na mente, mas me veio, e veio toda aquela vida que pouco vi, era eu criança quando avô João e Fia partiram.  E eu fiquei naquela sombra meditando.    Sobre mim e os homens, os homens e Deus, eu e Deus e, os homens.  E meditei a família.  E pensei que aquela sombra grande que meu pai escolheu pra colocar a mãezinha, o paizinho e a irmãzinha dele, parecia a arvore grande que havia logo próximo da porta quando morávamos na fazenda, como a arvore que meu avô João sentava sob a sombra,  pra pitar seu pito, como a arvore em que a minha tia se encantava com passarinhos.  E meus olhos se encheram, e o vento soprou morno e a voz do vento veio dizer:
- Não chora.  Deus veio na voz do vento, e continuou.
- A irmãzinha do teu velho pai sempre é embalada nos braços de Cristo, até teu priminho brinca com ela, teu avozinho descansa numa árvore grande próximo a um grande lago azul no céu, onde moram os homens que construíram famílias honradas com filhos honestos focados em Cristo.
   E ali na sombra da árvore junto com meu avô e minha tia esta minha avó Césa. Inclusive escrevi um conto que cito o nome dela.
Do outro lado, onde tem o banco de mármore, com meu outro o avô, nosso Leal, tem minha Bisa e o banco esta também, que meu primo colocou pra gente meditar e descansar, na verdade era pra minha Bisa sentar-se quando em vida, ela  ia La no tumulo do meu avô, mas com certeza o poeta pensou no meditar.    La do outro lado perto do muro tem a sombra da arvore, sobre meu avô João, avó Césa e Fia, também pra gente meditar e descansar.   Até acho que deveriam plantar muitas arvores dentro do cemitério, e colocarem bancos, mais bancos, muitos bancos pra gente meditar.   E meu pai foi colocado La no sol, como o sol que bronzeou teu rosto por anos e anos na vida da roça, como o sol que marcou e envelheceu teu corpo de lutar pelos filhos e teus pais de origem muito pobre.   Como o sol que trazia marcas de preocupação nos tempos de seca, quando a semente geme no chão ao nascer.  Mas nascia como a preocupação de amor tentando mostrar horizontes aos filhos, ou de se preocupar em encontrar uma sombra pra o descanso dos teus queridos.
   E ouso o som do clarim, e o recital do meu primo pra meu avô Leal.  E o vento que vem sempre soprar palavras de Cristo aos nossos ouvidos, vezes tantas não ouvimos.    E até Cristo chorou ao saber da morte de Lázaro.  Aquele que é vida, também chorou.    E quantas vezes minha garganta sangrou.  
      E sai por lá num repente, tenho amigos, senti saudades, o Toninho que ia comprar o corcel 73 pra gente ir pra praia, num tempo que a gente nem podia compra bicicleta, o Rogério. Arrisquei achar os túmulos, ver uma foto, sei La.    Vinte anos que não entrava ali.   É que na vida a gente talvez não tenha dado muita importância à vida, as pessoas e até aos bichos.   Lembrei-me daquele menino que morreu junto com o Rogério, acidente de moto, a mãezinha dele, nem roupa tinha pra ir ao velório, daí ficou velado na casa dela, La na vila Abel, ela ficou acenando do portão, quando ele foi.
      Sei lá, mas tem a sombra pra meditar e falar com Deus, sobre o que temos feito da vida.   Queremos carrões, casas, faculdades, dinheiro, sexo. E a vida, o amor, o sentar e conversar?    Nunca imaginei que fosse ao cemitério que Deus ia falar comigo.    Eu que achava o bando de imbecis visitando mortos.   Um dia Cristo disse: - Deixai que os mortos enterrem teus mortos e siga-me.    Mas tem toda uma história ali, tem o que era o ontem dos nossos queridos e o quanto aprendemos e  erramos, o que éramos e o que somos.  E o que somos?

     E num canto na minha visão ali, vi aquele lado depois do tumulo do Francesco, acho que ali é para os mais paupérrimos e indigentes.       Tantas pequeninas cruzes de ferro e enferrujada, vi uma mulher andando ali de um lado pra outro, com varias flores num feixe só.    Parecia procurar ali um ente querido, talvez o filhinho ou o esposo, ou o pai, talvez a mãe.  Mas ali tudo é estranho, o descaso.  Parei, queria ir La, mas não fui, perguntar algo, ela estava aflita, já de idade, não localizava ou não lembrava.  Colocava a mão no rosto, nos cabelos, limpava os olhos. Jesus, que dor!     Daí veio o vento, pedi a Deus:
- Voz do vento, fale com ela, por favor, mostra o que ela procura.   Não sei quantas cruzes tinha ali, eu não sei.    Nem sei o quanto minhas atitudes são rudes e minha solidariedade é nada.   E o vento levou algumas folhas pra os pés dela, e as espalhou no terreno santo.    Ela escabelou mais uma vez.   Vou chama-la de Mariquinha, só pra ter referência.    
    Você sabe quantas Mariquinhas tem neste planeta, de vida dura, corpo surrado e espírito que sangra?    Mas ela percebeu o vento espalhar as folhas sobre as varias cruzes. Ali é tudo terra, pedaço de chão dos indigentes, dos mais pobres.    E notou as folhas, imagino que ela pensou:
- Todos esquecidos ais, como o meu querido.    Então ela notou as folhas.    Abriu do feixe de flores, não eram muitas, mas eram lindas, talvez as mais lindas que já vi regadas pelas lágrimas de Mariquinha.   E foi colocando uma a cada cruz, no espaço que talvez ela achasse que poderia ser do teu ente querido.  E foi colocando uma a uma, em cada cruz.   Depois esperou o vento calar-se e colocou e ascendeu às velas, uma a uma, em cada cruz.       E ela sentou no chão, e chorou.   Logo veio outra senhorinha, com um menino pela mão, sem flores eu percebi, sem velas também. 
          A senhorinha e o menino notaram a flor bonita onde esta teu ente.   E ela sorriu e beijou o menino, ali tinha uma flor, e esta senhorinha por referencia digo que é Maria.  E talvez Maria estivesse agradecendo agora a Deus pela flor e pela luz.   E o vento tocou o menino, e chorando ele sorriu.       E o vento talvez viesse dizer agora:
   - Filho, obrigado pela flor. Mariquinha então notou que o menino e Maria ficaram felizes, e Mariquinha percebeu o vento de Deus soprar. 
Mariquinha então da tristeza ouviu o vento que dizia:
   - Dei a ti teu filho, que conduziu pra meus braços, quando lia a bíblia na cabeceira da tua cama, quando ensinou a ir pelo evangelho e hoje habita comigo na casa do meu Pai.
       Penso e quero sentir que foi isso que presenciei, quando notei Mariquinha abrindo os braços pra o céu.


Markus de Libra





Um comentário:

  1. meu amigom é um cara de uma sensibilidade incomum. seus contos são de um,a profundeza indiscrítivel. meu amigo é markus libra

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