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segunda-feira, 12 de novembro de 2012

SOMAS DE PEDRO CARABINA


     Meu velho era assim.  Ele ficava na mesa riscando papeis, coisas lá do seu tempo, da tua alma, traçado espírito da lida do campo.  Vezes tantas folheava os livros que havia numa estante na sala de estar. Na sala de estar onde fica a mesa que ele ficava.
    Folheava  livros que comprou aos montes pra que seus seis filhos se tornassem amantes da literatura, e pudessem apanhar o sol, ou quem sabe alçar voo além dos contos de fábulas ou, da vida dura da lida do campo.
     Os livros que ele folheava, compunha soneto dos teus sonhos, eram tantos, numa época que escolas eram pra brancos e ricos.   Mesmo as escolas públicas eram separadas por classes sociais. 
     Na minha época era assim e era aqui, mas ele ficava naquela mesa, riscando, traçando, somando.  Certa vez ele desenhou uma flor em rabiscos perdidos no final de uma soma. Tuas mãos eram tremulas do reumatismo, do trabalho no tempo em que roça escravizava. 
      Então com o reumatismo, afastado, e com a aposentadoria que não vinha. É que trabalhadores antigos quase sempre não tinham carteira assinada. Mas ele ficava somando.
    Um dia ele me mostrou as mãos calosas, tremulas dos mais de quarenta anos trabalhados, me dizendo que mostrou La pra o seu doutor, me disse chorando que era prova dos anos trabalhados. Ele apresentou as mãos cansadas, marcadas de calos, tremulas e doída de reumatismo pra o senhor Doutor do INSS.   Você entendeu o que meu velho quis dizer pra o senhor doutor do INSS?
     Ele, na tua leitura pouca, era o rei dos cálculos.  Se eu fosse escrever um conto, não saberia muito que dizer de um homem que somava, depois assinava, no treinado e repetido nome.
     Mas, o que mais intrigava era um homem de sessenta e quatro anos desenhando flores, somando e praticando uma rubrica melhor.
     Uma flor sozinha no vazio do papel, depois de somas extensas, sempre aquelas continhas tipo quarta série.
     E de somas tantas, ele desenhava também um sol, um pássaro, no canto do papel, desses que se faz à ponta de lápis. Todos os dias, somava repetidamente. Dia e noite, pra só depois assinar tua arte, a felicidade de saber somar e riscar o sol no canto do papel.
     Não notei aquele homem com envelhecimento precoce da lida do campo, no aprendizado do tempo, o homem que se perdia nos próprios  sonhos. 
        Ele que não pode estar presente na formatura da  minha irmã, que  concluiu o sonho dele, ser doutora. Talvez seja a flor que ele desenhou.
          
         Às vezes, nas madrugadas ele tombava teu rosto sobre os papeis, dormia ali, sobre páginas de um caderno velho. Notavam-se as folhas molhadas de um choro silencioso.  E sob as lágrimas as somas tantas, a flor, o sol, o pássaro. Quase sempre igual.
     
       O tempo veio rápido, veloz. Engoliu aquele homem, lágrimas tantas; aquele mesmo homem, que por anos ficou naquela mesa, vestido na tua blusa verde. Sentado a mesa, somando, projetando sonhos pra tua família, aos sessenta e tantos. Mas no lugar do chapéu panamá, um gorro...
      Antes da blusa verde e do gorro, ele trajava uma camisa azul céu aberta no peito, quando triste montava seu cavalo baio, a camisa aberta no peito e o chapéu ele agitava no espaço e ia chorar lá no alto do vasto pasto verde.  Mas veio o tempo, e os sonhos ainda não aconteceram, e os olhos cor de mel marejavam, os os filhos a causa da sua luta, e a sua luta na soma ....
     Meu velho era assim, sonhava algo bom pra os filhos. Tempo todo, dia todo. Agora a mesa esta vazia.
    Depois de tanto tempo, às vezes deito e fico olhando o teto. As somas giram no espaço, como no alagado do papel das somas simples.
- mercearia, tanto.
- escola dos meninos – tanto
- reforma da casa – tanto
- chitão – tanto... Chitão é tecido.
- isso, aquilo tanto.
- luz, água, isso, aquilo é igual a tanto...
- e pára os livros, era como que engasgasse com sangue, nunca tinha, pra faculdade, nunca tinha, pra ver teus filhos subindo pódios...   
     "Subimos pai, você entende daí onde esta?"  Até publiquei um livro pequeno.
       
     O resultado era sempre no vermelho, e era necessário inventar algo, criar uma alternativa pra ganhar mais, mas como?  No reumatismo, na idade a surrada da luta vã, dos sonhos esfaqueando a alma.
     Varias páginas, vários anos, as mesmas coisas, o reumatismo aumentando, as debilidades, voltou a fumar. O cigarro maldito agora era companheiro do fim da vida.
    
       Meu Deus! E a flor, e o sol, e o pássaro?  E as somas... As continhas tipo quarta serie.
     O quanto ele ganhou trabalhando durante anos, ele somou, estava tudo lá. Registrado. Até a indenização que recebeu quando foi demitido depois de vários anos trabalhando numa fazenda.
        E ele somou, também a despedida que fez ao teu cavalo baio.  Vimos ele abraçado ao cavalo chorando. Enquanto Lobo, lambia sua mão. Ele somou tudo, somou o que precisava pra alugar um pasto e buscar teu cavalo. O tempo passou e nunca sobrou pra buscar o baio, mas ficou somado. 
       O dinheiro da indenização que recebeu, foi pra poupança e o governo confiscou. Ele somou e fez a subtração de uma vida que se perde em segundos.
     Páginas e páginas fechadas no vermelho, mas tinha a flor, tinha o sol. Tinha o sol e a rubrica. E as marcas das lágrimas no caderno.
     Depois que adoeceu sem grana, foram-se os amigos. Até isso ele somou.
     E eu, sonhei certo dia. Havia uma soma.  Soma de coisas boas. E era ele que somava e sorria. Estava feliz. E Gritando. “Obrigado Jesus!”.
     Era a lógica das tuas somas, da soma da tua vida. De tudo que se dedicou. Claro, a lógica de pai que viveu pela tua família. Soma de amor e dedicação aos filhos. Que mesmo que a soma dos números fosse negativo o resultado era amor, de um algo bom, que ama e ama.
    Coisas de um homem preocupado com o futuro dos teus filhos.  
    E vi que resultado da soma, ele simplesmente queria que fosse igual a uma flor, essa flor igual a uma vida melhor pra mamãe, só pra vê-la sorrindo. Notei que o tecido de chitão que ficou em todas as paginas era o vestido que ele nunca conseguiu dar pra mamãe. Só um vestido apenas. Chitão apenas.
    Senhor! Meu Deus... O sol. O sol era o resultado de dias mais calmos sobre nós, com filhos mais cultos, além do seu tempo.
   E o voo do pássaro fosse os filhos conquistando horizontes, formados quem sabe numa faculdade. Voando um vôo bonito como de um condor.
    Era o resultado que ele queria.
    E interessante, àquele velho na soma da minha vida. Um herói na soma dos anos. De luta, dignidade. Honestidade, isso o matou, gente honesta neste país até morre ou se mata de depressões profundas, por não saber jogar o jogo.
    É que nunca imaginei que na soma da luta de um velho pai, o resultado seria uma flor.

Markus Libra

2 comentários:

  1. muto profundo esse conto muito bom mesmo parabens ai Markus Libra ,,, continue pstando q concerteza o blog vai bombar e so uma opiniao podetria s botar ai um gadget chamado contador de visitas assim vc sabe se o blog taindo ou ta sem visitas ok vlw abraço

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  2. Texto profundo, me encantou e emocionou...consegui visualizar o pai sentado, olhar perdido somando..

    Lindo mesmo!
    parabéns

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